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'Flores ou respeito no 8 de março?': reflexões sobre patriarcado e feminismo

Publicado em 08/03/2023 14:30

Imagem: Divulgação

Mais um 8 de março e a velha máxima “não quero flores, quero respeito” aparece em postagens debatendo o lugar da mulher na sociedade, as mudanças que ocorreram e que precisam ocorrer em relação às questões de gênero, entre outras discussões.

E o que isso tem a ver com Ciência? Há tempos, os estudos de gênero, patriarcado, feminismo e temas afins fazem parte da agenda de pesquisa de muitos que se interessam pelo assunto e entendem a importância de apresentar e discutir esses conceitos e trazê-los para fora dos muros acadêmicos.

Como pesquisadora dos Estudos de Gênero e de Análise de Discurso Crítica, ao aprofundar o tema na minha pesquisa de doutorado1, penso ser fundamental destacar pontos sobre gênero, patriarcado e movimento feminista, e como alguns termos podem influenciar nossa vida e nossa sociedade, uma vez que a Ciência está cada vez mais presente na nossa vida, seja por meio do “pensar” alguns termos relacionados a isso, seja pela mudança real da sociedade, permeada pelas reflexões científicas de autores que pensam sobre o tema e formulam teorias que nos ajudam a entender melhor.

Patriarcado é um termo de origem grega: pater (pai) + arkhe (origem, substância inicial) (HIRATA et. al, 2009)) significa autoridade do pai (autoridade essa que se refere também aos maridos). Pensar o patriarcado, portanto, é pensar em diversas situações e momentos sociais nos quais a mulher foi cerceada devido ao simples fato de ser mulher. Devido ao poder patriarcal, durante muito tempo, as mulheres não podiam, inclusive, estudar, trabalhar, gerir seu próprio dinheiro em caso de herança, votar, entre outras proibições, pura e simplesmente por serem mulheres.

Dentre as lutas do movimento feminista contra o patriarcado podemos destacar a luta pelo sufrágio universal (as mulheres tiveram o direito de votar somente em 1932), as questões de saúde da mulher, a sexualidade e violência (avanços recentes como pílula anticoncepcional, Lei Maria da Penha, punições inclusive em casos de violência psicológica), a formação profissional (atualmente mulheres podem escolher a profissão, mas antigamente esse direito era restrito somente a profissões exclusivamente 'femininas', como professora e enfermeira - profissões do cuidado), o mercado de trabalho.

Ao pensarmos em como o gênero afeta diretamente nossa vida, podemos pensar em três relações cotidianas: as relações familiares, as afetivas e as profissionais. Seja qual for sua ocupação ou função, seja qual for sua idade, essas relações nos entrelaçam muitas vezes sem percebermos, ou não.

Nas relações familiares, podemos lembrar como fomos tratados quando crianças, como nossos pais (ou aqueles que viveram conosco) se tratavam entre si. Havia respeito? Ou este passou longe dali? Houve uma divisão de tarefas domésticas e das responsabilidades na criação de filhos (quando houver) entre os que dividiam o mesmo teto?

Se pensarmos nas transformações das relações familiares, percebemos a diferença das configurações de hoje e de antigamente. Aquele modelo de relação familiar tradicional (pai, mãe e filhos) ainda existe, mas, há tempos está permeado por variações, já que agora há famílias formadas por mãe e filhos, pai e filhos, mãe, padrastos, enteados, filhos, casais homoafetivos que criam filhos biológicos ou não.

Seja qual for o modelo familiar, há que existir esse respeito. Daí, já trazendo o tema das relações afetivas, da forma como tratamos o outro ou como gostaríamos de ser tratados: com respeito ou preconceito?

O respeito deve existir em relação ao corpo do outro, às opiniões do outro, às relações afetivas do outro e também à orientação sexual do outro. Tudo isso permeia as relações de gênero.

Nas relações profissionais, questões de gênero também estão presentes, seja na forma como as mulheres são respeitadas em seu ambiente de trabalho, ou se seu salário é igual ao dos homens que exercem a mesma função, o que ainda hoje não acontece (as mulheres ganham, em média, 20 % menos que os homens na mesma função).

As mulheres por muito tempo ficaram limitadas ao trabalho doméstico. Quando elas assumem trabalhos fora de casa, enfrentam problemas como baixa ocupação de cargos de chefia ou liderança (a maioria desses cargos ainda é ocupada pelo sexo masculino), pouca representatividade em cargos políticos (inclusive, há uma lei que obriga os partidos e coligações a ter 30% das mulheres candidatas, mas esse percentual ainda é difícil de ser alcançado) e ainda precisam provar que são realmente competentes e que realizam as atividades tão bem quanto os homens, com atitudes às vezes mais “masculinizadas” e mais rígidas nas ações e nas palavras.

Pensar as relações, sejam elas sociais, familiares ou profissionais, vai ao encontro do sentimento ou posicionamento que temos enquanto membro da sociedade e as ações que cada um realiza. Como cidadãos, somos agentes de mudança constante, sejamos jovens, adultos ou idosos. Respeitar o outro vai muito além da questão de um discurso politicamente correto.

A ciência está presente no cotidiano de todos, por isso nossas ações refletem também constantemente na construção desse mundo melhor para a sociedade como um todo, seja qual for a orientação sexual ou mesmo os exemplos que o indivíduo teve ao longo da vida.

Ciência como transformação da sociedade passa pela reflexão da sociedade como um todo e a transformação dessa sociedade em algo mais justo e bom para todos.

E o que as flores tem a ver com tudo isso? É do senso comum o costume de as mulheres receberem flores em datas especiais, muitas vezes como símbolo de romantismo. Porém, com as mudanças na sociedade, inclusive com os espaços alcançados pelas mulheres, esse “presente” é questionado, principalmente esse significado “romantizado”, para afastar do imaginário feminino a ideia de fragilidade e submissão que antes era atribuída às mulheres e que hoje se modificou.

Flores ou respeito no dia 8 de março? Flores com respeito, por favor!

Por Pauline Freire Pimenta, servidora técnico-administrativa da UFLA e pesquisadora na área de Estudos Linguísticos, Análise do Discurso e Estudos de Gênero

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