Super El Niño pode pressionar inflação e afetar economia de Mato Grosso do Sul, alerta economista
Fenômeno climático pode reduzir a produção agrícola, elevar os custos do agronegócio e impactar os preços dos alimentos nos próximos meses
Publicado em 30/07/2026 07:08
A possível formação de um Super El Niño entre o fim de 2026 e o início de 2027 acende um sinal de alerta para a economia de Mato Grosso do Sul. Estado com forte dependência do agronegócio, responsável por parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB), das exportações e da geração de empregos, pode sentir os efeitos da redução da produção agrícola, do aumento dos custos e da pressão sobre os preços dos alimentos.
Segundo análise da Agricon Consultoria, o fenômeno climático tende a provocar impactos que vão além das mudanças no tempo. A redução da previsibilidade da produção, aliada ao aumento dos custos nas cadeias produtivas, pode influenciar a inflação e tornar o ambiente econômico mais desafiador para produtores, empresas e consumidores.
De acordo com projeções de centros internacionais de monitoramento climático, há alta probabilidade de formação de um Super El Niño nos próximos meses. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, alterando os regimes de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta.
No Brasil, os impactos variam conforme a região. No Centro-Oeste, a combinação de temperaturas elevadas e déficit hídrico pode comprometer principalmente a segunda safra de milho. Já na Região Sul, o excesso de chuvas aumenta os riscos para culturas como arroz, trigo e hortaliças.
Para o economista e diretor de Negócios da Agricon Consultoria, Hudson Garcia, o Super El Niño representa um típico choque de oferta, com potencial para afetar diferentes setores da economia.
"O Super El Niño deixa de ser apenas um evento climático para se tornar uma variável econômica relevante. Quando a produção agrícola perde previsibilidade, toda a cadeia produtiva passa a operar com custos maiores, maior volatilidade e mais incerteza. Isso afeta produtores, indústrias, consumidores e também as expectativas de crescimento da economia", afirma.
Milho pode ampliar efeitos sobre toda a cadeia produtiva
Entre os produtos que mais preocupam está o milho, cultura estratégica para Mato Grosso do Sul e base da alimentação animal.
Segundo Hudson Garcia, uma eventual redução da oferta ou aumento dos custos de produção pode gerar reflexos em diferentes segmentos do agronegócio. "Entre 65% e 80% da composição da ração animal é formada por milho. Se houver redução da oferta ou aumento expressivo dos custos de produção, o impacto tende a ser repassado para cadeias como aves, suínos, leite e bovinos, chegando ao consumidor na forma de alimentos mais caros", explica.
Pressão sobre a inflação
O economista destaca que os efeitos também podem ser percebidos na inflação. O grupo Alimentação e Bebidas representa aproximadamente 21,5% da cesta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador da inflação oficial do País. "Eventos climáticos extremos dificultam o controle da inflação justamente por afetarem produtos essenciais. Esse cenário pode prolongar o período de juros elevados e tornar decisões de investimento mais conservadoras", observa.
Estado pode sentir impactos acima da média
Em Mato Grosso do Sul, os reflexos tendem a ser mais intensos devido ao peso do agronegócio na economia estadual. Além da produção de grãos, o Estado ocupa posição de destaque nas cadeias de carne bovina, aves, suínos e celulose, atividades diretamente ligadas ao desempenho da agricultura e sensíveis às oscilações climáticas.
Para Hudson Garcia, esse cenário reforça a importância do planejamento estratégico por parte de produtores, cooperativas e empresas ligadas ao setor. "O clima passou a fazer parte da gestão econômica. Empresas, cooperativas e produtores precisam incorporar os riscos climáticos ao planejamento financeiro, aos investimentos e às estratégias de produção. Cada vez mais, competitividade também significa capacidade de adaptação", destaca.
Segundo o economista, embora eventos climáticos não possam ser evitados, seus impactos podem ser reduzidos por meio de investimentos em tecnologia, gestão de riscos, inovação e diversificação das atividades. "O desafio é transformar informação em planejamento. Quem consegue antecipar cenários, diversificar riscos e aumentar sua eficiência tende a enfrentar períodos de maior instabilidade com muito mais resiliência", conclui.
Para a Agricon Consultoria, a possível ocorrência de um Super El Niño reforça que clima e economia estão cada vez mais interligados. Em um estado cuja economia é fortemente sustentada pelo agronegócio, acompanhar os riscos climáticos tornou-se uma ferramenta estratégica para preservar a competitividade, orientar investimentos e fortalecer o crescimento de longo prazo.
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